
Terminado a Copa do Mundo de Futsal, é bom fazer um balanço da competição. Aí vai:
Organização. Não se ouviu falar de grandes problemas na organização, ao contrário do que ocorreu no ano passado com os Jogos Pan-Americanos. A presença constante da FIFA e o fato de ser uma competição com menos atletas e menor estrutura do que o Pan pode ter contribuído para isso. No entanto, chamou a atenção a escassa presença de público na maior parte dos jogos. A assistência só não foi menor porque um programa de distribuição de ingressos em comunidades carentes ajudou a melhorar a média nos ginásios. É provável que o acordo com a Globo para que os jogos fossem realizados pela manhã tenha contribuído muito para o esvaziamento, mas acredito que a escolha das sedes também foi importante. O sul do país, onde há mais tradição na prática do futsal, não recebeu a competição, o que considero uma falha considerável. Da mesma forma, o Ceará, pela sua história no esporte, seria um candidato forte a receber uma das sedes. A centralização dos jogos em Brasília e Rio de Janeiro pode ter contribuído com a menor média de público e pode ter dificultado o processo de sensibilização dos torcedores em relação ao torneio, já que a maior parte das regiões, principalmente aquelas em que o esporte é forte, ficaram de fora. O Brasil é grande demais para ter apenas duas sedes. Talvez Porto Alegre e Fortaleza devessem estar na lista.
Naturalização. A Itália foi o maior exemplo de que que o futsal é um esporte quase que exclusivamente praticado e desenvolvido por brasileiros. A seleção italiana era um time brasileiro disfarçado, o que é uma verdadeira aberração.Deve-se, no entanto, fazer uma diferenciação entre aqueles que possuem dupla nacionalidade e naturalização. Sabe-se que na Itália aplica-se o critério dos jus sanguinis para a aquisição da nacionalidade, ou seja, o vínculo com o país é definido pelo vínculo de parentesco com nacionais. Assim, se alguém nascido no Brasil é filho, neto ou bisneto de italianos, ao ter o reconhecimento da nacionalidade ele será tão italiano quanto brasileiro, isto é, terá duas nacionalidades originárias. No caso de alguém que possui dupla nacionalidade, não vejo nenhuma razão para criticar-se o fato do jogador optar por jogar em uma ou outra seleção. O problema está no caso de naturalização, quando a pessoa voluntariamente opta por perder a sua nacionalidade adquirida com o nascimento e adquire outra nacionalidade. Neste caso acredito que a FIFA deva impor regras urgentes para evitar os excessos. Por outro lado, não concordo com as críticas feitas por jogadores brasileiros, no sentido de que adquirir outra nacionalidade para jogar em outra seleção é falta de patriotismo. Se um jogador não tem espaço na seleção brasileira e há a oportunidade dele obter ganhos financeiros e profissionais caso se naturalize essa é uma decisão legítima que deve ser respeitada.Não se trata de um ato imoral.
O craque. Falcão pratica o futsal mais vistoso, mas para mim não foi o craque da competição. Acredito que o júri entrou na onda da torcida, que sempre gosta de lances bonitos. Na verdade, a seleção dependia muito mais de Schumaker, esse sim, no meu entendimento, o craque da competição. A seleção era outra com ele na quadra, como ficou claro no jogo contra a Rússia. E na final ele fez uma falta enorme nos momentos mais difíceis. Já na escolha do melhor goleiro a escolha foi certeira. Tiago deu show, ainda que Luiz Amado, da Espanha, tenha mostrado ser um goleiro espetacular.
Falcão. Não há dúvidas de que ele é um craque, um jogador de talento inigualável. Mas parece seu um pouco deslumbrado com a fama e exterioriza alguma arrogância. Não faz o estilo do craque que consegue falar da própria categoria sem petulância, como faz de forma magistral o grande Túlio Maravilha. Sua imagem pode ter ficado manchada com o depoimento do editor de Esportes do jornal "O Globo", que viu Falcão dar um soco no jogador espanhol Álvaro, enquanto este cumprimentava um jogador da seleção brasileira. Se isso realmente ocorreu o mínimo que Falcão deve fazer é pedir desculpas públicas. Esse é um comportamento inadmissível para um jogador de elite em qualquer modalidade esportiva. Os espanhóis foram adversários à altura e valorizaram a competição. Também levam os louros por aquilo que a competição teve de positivo.
O futuro. É provável que o futsal tenha um crescimento lento, como já vem tendo. Mais provável ainda que continue sendo um esporte destinado à formação inicial de garotos. No Brasil, é possível que continue sendo incentivado principalmente por empresa localizadas em cidades do interior e que querem colocar reforçar a marca, mas que não possuem o calibre necessário para investir de forma significativa em clubes da série A do futebol brasileiro. Dessa forma, continuará sendo um esporte importante em cidades como Jaraguá, Erechim, Carlos Barbosa e Passo Fundo, uma boa opção para assistir-se a jogos em ambientes fechados no rigoroso inverno gaúcho. No exterior, caminhará a passos lentos, mesmo com todo o apoio da marca FIFA. O Mundial do Brasil, ainda que a vitória tenha vindo depois de um jogo histórico contra a Espanha, talvez não tenha conseguido estabelecer um divisor de águas para novos tempos. Vamos aguardar pra ver.
Foto: www.fifa.com