Sábado, 22 de Novembro de 2008

Riam contribuintes, a Copa está no ar

Caro cidadão brasileiro, que trabalha muito e paga pesados impostos para bancar uma máquina estatal que distribui com vontade benefícios para os amigos do poder, que vão desde pequenos corruptores interessados em aposentadorias fraudadas do INSS até poderosos empresários ávidos por uma concessão ou uma grande obra pública: a notícia boa é que a Copa do Mundo de 2014 já começou. O Governo do Distrito Federal, por exemplo, colocou um bom dinheiro no estádio em que o Brasil jogou. Viva esse momento. A Copa está nas ruas e nos estádios. e no melhor estilo brasileiro. Como já se desconfiava, os brasileiros fariam a Copa ao seu jeito, imprimindo suas mais marcantes características. Olhem a reportagem do site Congresso em foco, sobre o amistosos da seleção contra Portugal:
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Brasil para poucos
Distribuição de ingressos para parlamentares e demais autoridades e entrada a partir de R$ 180 excluem torcedor de jogo da seleção no DF

Eduardo Militão

O torcedor terá pouco espaço esta noite para se acomodar nas cadeiras do novo Estádio Bezerrão, no Gama, cidade do Distrito Federal, para acompanhar o duelo entre as seleções do Brasil, de Kaká, e de Portugal, de Cristiano Ronaldo, dois dos principais astros do futebol mundial.

Além do elevado preço do ingresso, vendido a partir de R$ 180, a torcida enfrenta outra adversidade. A farta distribuição de convites para parlamentares e demais autoridades dos governos federal e local reúne, mais uma vez, política e futebol no mesmo campo.

A expectativa é que 12 mil pessoas paguem ingresso e outras 8 mil sejam convidadas. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) diz que o assunto não é com ela. A assessoria do Governo do Distrito Federal (GDF) diz que rateará 4.500 entradas grátis com a confederação e os patrocinadores.

Apesar de não terem realizado nenhuma atividade durante este ano, integrantes da Subcomissão para Acompanhar os Preparativos da Copa do Mundo de 2014, criada dentro da Comissão de Turismo e Desporto da Câmara, vão assistir de camarote à partida, a convite do ministro dos Esportes, Orlando Silva.

A Comissão de Turismo e Desporto (CTD), composta por 38 parlamentares titulares e suplentes, já solicitou à CBF convites para todos os seus membros. Mas foi informada pela confederação de que, para serem agraciados, os deputados deveriam fazer pedidos individualmente.

O diretor de Assuntos Legislativos da entidade em Brasília pede calma aos congressistas. “Claro que serão contemplados os deputados federais. Alguns estão sendo atendidos”, diz Vandenberg Machado.

O presidente da Subcomissão da Copa de 2014, Marcelo Teixeira (PR-CE), recebeu o convite do ministro do Esporte na semana passada. “Nossa intenção é ir”, garante. Ele não quis dizer a quantos políticos Orlando Silva ofereceu a cortesia. “Poucas pessoas”, despista. Ao todo, oito deputados da Comissão de Turismo e Desporto participaram do encontro com o ministro. No gabinete de Marcelo, os funcionários procuravam entradas para os filhos.

Sem trabalho

A Subcomissão presidida pelo cearense foi instalada em 4 de junho deste ano, mas até agora não se reuniu. “Não há interesse”, critica Sílvio Torres (PSDB-SP), autor do requerimento de criação do grupo e titular do colegiado e relator da CPI da Nike na Câmara, no início da década. “A Subcomissão da Copa não é para assistir aos jogos. Daqui a pouco o trabalho vai se limitar a isso, se depender do Ricardo Teixeira [presidente da CBF]”, critica o tucano.

Torres afirma que há muito serviço pela frente, como tratar dos vistos de trabalho das delegações das seleções e das isenções de impostos para setores em ampla atividade na Copa, como os materiais esportivos importados. “O Ricardo Teixeira não tem o menor interesse em ver o Congresso acompanhando.”

O presidente da subcomissão se justifica. Marcelo Teixeira diz que as eleições impediram o andamento dos trabalhos. “Ficou um pouco prejudicado.” O deputado afirma que, mesmo em junho, antes do início da campanha eleitoral, não era possível se dedicar ao tema. “Aí já estávamos praticamente em clima de eleição”, afirma.

O deputado sustenta que os trabalhos serão retomados em grande estilo. No dia 25 de novembro, haverá um congresso de turismo cujo tema será a Copa do Mundo. Entre os convidados, o ministro do Turismo, Luís Barreto, Orlando Silva e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira.

Marcelo entende que o jogo não vai atrapalhar as votações desta quarta-feira (19) no plenário da Casa. “Vamos iniciar a reforma tributária. O jogo é à noite, depois da novela...” Do Congresso Nacional, no Plano Piloto de Brasília, até o Estádio do Bezerrão, na cidade do Gama, são cerca de 40 quilômetros – o trajeto pode ser percorrido entre 40 minutos e uma hora, a depender do trânsito.

Questionado sobre o eventual esvaziamento da Casa, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), disse ontem (18) que “vai em frente”, apesar de alguns parlamentares quererem “um autógrafo do Dunga”.

Troca de responsabilidade

A distribuição de ingressos causou polêmica em Brasília. Segundo a assessoria da CBF, o rateio está a cargo do governador José Roberto Arruda (DEM). A Secretaria de Esporte do Distrito Federal, porém, diz que a responsabilidade é da Federação Brasiliense de Futebol (FBF), que repassa, por sua vez, a função para o governo.

A assessoria do gabinete do governador admitiu que, dos 20 mil lugares do reformado estádio do Bezerrão (obra de R$ 50 milhões), só 12 mil ingressos estão à venda. No início, eram ainda menos: 9 mil.

Os auxiliares de Arruda revelam que 2 mil ingressos foram sorteados entre moradores do Gama e de Santa Maria, outra cidade do Distrito Federal. Mais 500 entradas foram distribuídas entre operários da obra.

Existem ainda 4.500 ingressos para autoridades convidadas, a cargo do GDF, CBF e patrocinadores. Aí, estão os parlamentares. A assessoria do governo do Distrito Federal não sabe a quantos deputados e senadores será oferecido um lugar na partida entre Brasil e Portugal, mas acredita que não há condições de convidar todos os 594 congressistas. Por fim, há uma “reserva técnica” de mil lugares, por questões de segurança.

Ao contrário, a assessoria da CBF não quer conversa sobre o tema. Diz que a distribuição de afagos é por conta do governador Arruda. “É com ele. Não tem nada a ver com a gente isso”, rebate o assessor de imprensa da entidade, Rodrigo Paiva. A Confederação só teria direito a uma cota não-revelada e assentos para familiares de atletas.

Os outros 12 mil ingressos são vendidos a partir de R$ 180,00, mas, no site www.ingresso.com.br, já há entradas a R$ 480,00 para assistir ao jogo no Gama, cidade do Distrito Federal.

Segundo a assessoria da CBF, o preço foi definido por uma empresa árabe e o governo do Distrito Federal. A empresa contratou a seleção para fazer 20 jogos amistosos. Já a assessoria do GDF diz que o preço foi acertado entre a CBF e a Federação Brasiliense de Futebol. Na federação, ninguém tem informações.

A realização do jogo no Gama faz parte da campanha do governo Arruda para confirmar Brasília como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Nos bastidores, a escolha da capital federal já é dada como certa. A confirmação, porém, só deve ser anunciada em março de 2009, quando serão divulgadas as cidades brasileiras que vão sediar os jogos.

Acinte

O ex-presidente da CPI do Futebol, senador Alvaro Dias (PSDB-PR), ironizou a distribuição de ingressos. “Deve-se repetir o convescote conhecido pela CBF. Eles são muito habilidosos e eficientes nesse trabalho de relações públicas.”

O senador criticou a ida de membros da Subcomissão da Copa ao jogo, já que ela não produziu nada ainda e a população vai ter que arcar com um preço “exorbitante” para ver um esporte popular. “É um acinte!”.

Para Alvaro Dias, os dirigentes do futebol usam a seleção “como se fosse propriedade privada”. Ele reclamou da falta de transparência na quantidade de convites. “Em Minas Gerais, distribuíram 3 mil ingressos. É um jogo de esconde-esconde. A gente só fica sabendo depois do jogo. Ninguém assume essa responsabilidade.”

Poucas reuniões

A Subcomissão da Copa de 2014 substitui a Subcomissão para a Escolha do Brasil como sede da competição. Como mostrou o Congresso em Foco, esse colegiado foi presidido por José Rocha (PR-BA), que recebeu R$ 150 mil da CBF nas últimas duas eleições nacionais.

Criada em julho de 2007, o grupo reuniu-se apenas oito vezes. Em quatro, não houve deliberações ou audiências públicas. O último trabalho foi votar o requerimento de Sílvio Torres para o encerramento das atividades e criação da Subcomissão para Acompanhar os Preparativos da Copa do Mundo de 2014.

No ano passado, 111 parlamentares (veja a lista) retiraram na última hora sua assinatura do requerimento de criação da CPI do Corinthians. Como revelou na época o Congresso em Foco, o lobby da CBF e dos governadores dos estados que reivindicavam sediar jogos da Copa de 2014 frustrou a expectativa de se investigar uma série de denúncias de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal nas transferências milionárias de jogadores do Brasil para o exterior.

Ligações políticas

A investigação teria como base a parceria entre o Corinthians e o fundo de investimentos Media Sport Investiment (MSI), representado pelo iraniano Kia Joorabchian. Em 2005, o clube paulista conseguiu trazer para a equipe astros argentinos, como Carlitos Tevez e Mascherano, e faturou o campeonato brasileiro daquele ano.

Em setembro do ano passado, a Polícia Federal deflagrou a Operação Perestroika, que investigava as relações entre o clube brasileiro, a MSI e o russo Boris Berezovski, sócio da MSI e apontado como financiador da parceria. Mas a intenção dos defensores da CPI era ir mais fundo e apurar crimes contra o sistema financeiro e a ordem tributária praticados por todos os clubes.

O argumento propagado pela CBF e pelo grupo de governadores era de que as investigações no Congresso poderiam levar a Fifa a voltar atrás em sua decisão e tirar do país a condição de sede da Copa de 2014. A vinculação entre as duas coisas, no entanto, foi descartada pelo próprio presidente da entidade máxima do futebol, o suíço Joseph Blatter."

3 Comments:

Biscoito said...

"Subcomissão para Acompanhar os Preparativos da Copa do Mundo de 2014" - Que merda é essa?!

Outra coisa, se em julho eles estavam já no clima de eleição (que dúvida!), é óbvio que eles estão sempre nesse clima. Talvez seja por isso que nunca se decida nada nesse país.

Essa de uma empresa árabe ter contratado a seleção é novidade pra mim. Pensei que a CBF não necessitasse de tamanhos lucros.

Mas ainda tem gente que paga mais de R$180 para ver a Seleção. Isso também é repugnante.

gerson said...

Sei lá que troço é esse de subcomissão da subcomissão. Q naba. Essa copa vai ser uma várzea. Árabe contratando jogo, sucomissão "acompanhando", os caras toda hora pensando em eleição e querendo ver um joguinho no "grátis". Aí é dose pra cavalo!

Wagner Sicca said...

Tchê, 100% gambiarra! A Copa sai, mas vai custar o dobro do que deveria, pode ter certeza. Essa festinha dos ingressos é só o começo.
Abraço